Áridas, planas, monossilábicas é o que muitas pessoas pensam serem as suas vidas. Também Reiú imaginava assim a sua, mas era uma percepção de relance. Qualquer indivíduo que vasculhe a profundeza de sua própria alma encontra uma rocha bruta, áspera que oculta uma joia única, cujas arestas, trincas, formas e traços contam cada momento que viveu em longos parágrafos, sem monossílabos.
A história de toda gente é recheada de marcas: algumas são imperceptíveis, outras são profundas feridas, algumas nunca cicatrizam, outras denunciam golpes duros praticados por ourives descuidados. Alguns sinais, nem o dono os percebe, de outros ele não conhece o autor, morre sem saber. Entretanto, a mesma história que exala o cheiro da dor, exala também o perfume.
Não há narrativa mais dramática, inconstante, parte previsível e parte imprevisível, rica, tomentosa, com gemidos e risos do que a de cada ser humano; a história daquele sujeito humilde que se encontra em alguma esquina do mundo é um manuscrito extraordinário, farto de percalços, sentimentos antagônicos, dores remediadas, escondidas ou expostas, e quase vazio de reparações e júbilos.
Eis a história de Reiú, um desses anônimos perdidos num canto do mundo, mas, no caso dele, as esquinas percorridas não eram tão distantes daqui...
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